segunda-feira, 4 de maio de 2009

Dependência, choro e responsabilidade

(texto de Mario Lima - Espaço Aobä - Acompanhando mães e pais - www.aobabebe.com)

Moro em uma casa cujo muro de uns quinze metros fica bem ao lado de uma escola. A escolinha vai do berçário até o maternal, e algumas tardes quando faz calor e as janelas ficam abertas não tenho como não ficar impressionado com o barulho do choro das crianças. Trata-se de uma das escolas mais caras da cidade e tenho certeza que os pais se orgulham de poder dar o melhor para os seus filhos. Mas isso não impede que os bebês continuem chorando. O que me deixa o coração mais apertado são os bebês de colo, que passam a maior parte do dia aí. Da pra identificar pelo timbre e pela insistência o choro que alguns deles não têm mais do que quatro ou cinco meses.

Por mais incompreensível que isso pareça pra mim que sou pai de uma menina de um ano e de um menino de três, sei que algumas pessoas iriam argumentar: mas será que é tão terrível chorar assim? Vai chegar uma hora que o bebê vai parar de chorar, não é? E se ficarmos sempre a disposição da criança, por qualquer chorinho, ele não vai ficar muito dependente? E depois, não vai acabar sofrendo pra viver em sociedade?


Dependência. É engraçado, às vezes quando acompanho a minha esposa na apresentação dos wraps slings (panos para carregar o bebê) o comentário que ouço com freqüência é: – carregar e ficar com o bebê tão próximo assim não vai fazer com que ele fique muito dependente? Também na França, onde vivi com minha família, pude observar que a grande preocupação das mães era que os seus bebês não ficassem dependentes delas, pois assim elas poderiam voltar mais cedo a trabalhar ou ter outra atividade. Muitas justificavam não ter nem começado a amamentar para justamente não criar essa “dependência”, pois saberiam que em quatro meses após o nascimento já teriam que voltar a exercer suas profissões.

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Vivemos em um mundo que não reconhece o choro das crianças assim como não reconhece as suas necessidades mais básicas de proximidade e de afeto. Vivemos em um mundo que separa as pessoas, cada vez mais cedo, e onde os vínculos se fragilizam pouco a pouco. Vivemos em um mundo onde a responsabilidade dos pais se dilui e já não se sabe mais quem é que deve assumir a educação dos filhos.

É preciso estar ciente que uma criança é sim inteiramente dependente, e de que são os pais os verdadeiros responsáveis pelo seu bem estar. Se uma criança chora é responsabilidade dos pais atenderem esse choro, e não de alguma forma evitar ouvi-lo.
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Na verdade, ao deixar voluntariamente um bebê chorar, os pais ou o substituto maternal estão criando um homem que mais tarde poderá ter dificuldades para reconhecer o seu valor, para se ouvir e ser ouvido, e, sobretudo que não acreditará na relevância das suas necessidades. Ao deixarmos um bebê chorar simplesmente, temos grandes chances de estarmos criando um indivíduo perigoso, capaz muitas vezes das maiores violências, pois assim como ele aprendeu a não ter suas sensações e necessidades reconhecidas terá dificuldade de identificar e de reconhecer as necessidades dos seus próximos.

Essa “dependência” nos primeiros anos é necessária e fundamental e ela não dura pra sempre. O interessante é que como na lei física da ação e reação, quanto mais se dá nos primeiros meses em termos de proximidade, mais a criança reage para se liberar e por si só vai se fortalecendo e construindo por si mesma a sua independência, pois ela também já vem “programada” com uma natural necessidade de autonomia.


(texto de Mario Lima - Espaço Aobä - Acompanhando mães e pais - www.aobabebe.com)

2 comentários:

Maria José disse...

que belo post obrigada pela informação
bjokas

Mãe Polenta disse...

Massa!
:*

tô com saudades! Mas tô tão sem tempo ! Me perdoa?